
A baixa representatividade da Serra Catarinense na Assembleia Legislativa de Santa Catarina (ALESC) não é fruto do acaso ou da falta de eleitores, mas sim de uma combinação matemática fatal: a abstenção aliada à extrema pulverização do voto.
Uma análise detalhada do desempenho para deputado estadual em Lages revela um dado alarmante: ao retirar da conta os dois deputados eleitos com forte base local (Lucas Neves e Marcius Machado), Lages distribuiu exatos 26.792 votos entre dezenas de outros candidatos.
Para compreender a gravidade desse número, basta olhar para a dinâmica da ALESC: na maioria das coligações e partidos, uma votação na faixa de 25.000 a 30.000 votos é suficiente para eleger um deputado estadual. Rodrigo Minotto foi eleito com 27.918 votos.
Isso significa que, além dos eleitos locais, Lages gerou votos suficientes para eleger mais um deputado estadual exclusivo para a região, mas essa votação foi inteiramente fatiada e “exportada” para nomes de fora ou sem viabilidade regional:
Invasão de bases: Candidatos de grandes centros (Florianópolis, Vale do Itajaí, Norte e Sul) vieram buscar fatias de 200, 500 ou 1.000 votos na cidade. Isoladamente parecem irrelevantes, mas somados chegam a quase 27 mil votos.
Divisão interna: A proliferação de candidaturas sem musculatura eleitoral no município diluiu a força do eleitorado, impedindo a consolidação de uma terceira ou quarta candidatura serrana competitiva.
A conta do prejuízo: 53 mil votos fora do foco regional
Ao cruzar os dados da votação pulverizada com o perfil do eleitorado lageano, o mapa do esvaziamento político da Serra se completa:
26.260 eleitores deixaram de ir às urnas (21,08% de abstenção).
26.792 votos foram pulverizados em candidatos que não elegeram a Serra como prioridade de mandato.
Somados, são mais de 53 mil votos desperdiçados ou dispersos apenas no município de Lages.
Enquanto regiões como o Sul, o Norte e o Vale do Itajaí concentram seus votos e garantem bancadas numerosas — conseguindo articular mais verbas, emendas impositivas e prioridade para obras de infraestrutura —, a Serra padece com a falta de peso político em Florianópolis.
O raio-X das urnas deixa uma lição clara para os próximos pleitos: a recuperação do protagonismo político da Serra não depende apenas de combater o desinteresse do eleitor que falta às urnas, mas também de conscientizar a população sobre o custo de “exportar” votos que poderiam estar garantindo mais cadeiras e recursos para a própria região.